


Projeto ReConectar Digital
♻️💻Como nasceu o Projeto ReConectar Digital💻♻️
No final da década de 1990, entre os anos de 1998 e 1999, algo começou a inquietar meu coração. Eu percebia, com cada vez mais clareza, a dificuldade que crianças e idosos tinham para lidar com os computadores — uma tecnologia que surgia cheia de promessas, mas também de riscos.
O mundo vivia o medo do Bug do Milênio. Havia uma apreensão coletiva sobre o que poderia acontecer com os computadores na virada do ano 2000. Foi nesse cenário de incertezas que comecei a pesquisar, estudar e refletir sobre como poderia ajudar, de forma responsável e segura, dois públicos que sempre me tocaram profundamente: crianças e idosos.
Meu desejo era claro. Queria ensinar crianças a usar o computador com segurança, mas também com esperança — esperança de futuro, de oportunidades, de emprego. Essas crianças não eram quaisquer crianças. Eram as mais necessitadas, vindas de comunidades carentes, especialmente do Morro do Dendê e regiões próximas. Naquela época, eu morava com meus pais na Ilha do Governador, e via de perto a realidade dura de muitas famílias.
Ao mesmo tempo, havia outro público igualmente vulnerável: os idosos. Pessoas que, assim como as crianças, precisariam aprender a se proteger em um mundo digital que começava a se descortinar, mas que já trazia perigos invisíveis.
É importante entender o contexto daquele tempo. A internet era discada. Para “navegar” naquele novo mundo, era recomendado acessar apenas durante a madrugada nos dias de semana ou a partir da tarde de sábado até a madrugada de segunda-feira. Mesmo assim, isso era quase impossível. A conexão ocupava a linha telefônica da casa. Telefones fixos eram regra; celulares, artigo de luxo. E quando existiam, serviam apenas para chamadas e SMS.
O uso da internet fora dos horários recomendados fazia a conta de telefone disparar. Não era raro ver pais retirando e escondendo os cabos do modem como forma de punição. E eu me perguntava: como alguém recém-saído do ensino médio, de uma família de classe média baixa, poderia bancar tudo isso? O que eu ganhava mal cobria a faculdade e ajudava nas despesas de casa. Não consegui uma vaga em universidade pública. Alugar uma sala para dar aulas? Impensável.
Ali, já ficava claro: o Projeto nascia cheio de sonhos, mas também cercado de dificuldades.
Por outro lado, eu já trabalhava com suporte técnico desde abril de 1994. Comecei cedo, aos 15 anos. Conseguir peças e montar computadores não seria o maior dos problemas. O desafio estava em todo o resto.
Conversei com muitas pessoas. A maioria me disse para esquecer. Diziam que não daria certo, que não havia futuro. Algumas sugeriram que eu guardasse a ideia para um dia distante. Mas uma minoria — pequena, porém decisiva — me aconselhou a não abandonar o sonho, apenas esperar o tempo certo.
E assim fiz. O Projeto ficou adormecido por muitos anos.
Por diversas vezes tentei tirá-lo da cabeça e colocá-lo em prática, sem mudar uma linha sequer. Todas as tentativas fracassaram.
Então veio a pandemia do Coronavírus. O mundo parou. Ficar em casa tornou-se regra. As compras passaram a chegar pela internet. A vida “normal” se transformou. E, junto com isso, vieram os golpes digitais — especialmente contra idosos. Crianças passaram a se expor em desafios intermináveis. Casos de violência, crueldade e falta de orientação digital cresceram assustadoramente.
Foi nesse cenário que aquele antigo Projeto, idealizado no início da minha vida adulta, voltou a pulsar forte dentro de mim. Mas a pergunta permanecia: como colocá-lo em prática?
A internet já não era mais o problema. Mas os custos continuavam: local, computadores, monitores, impressoras. E onde fazer tudo isso? Eu já não morava mais na Ilha do Governador havia muito tempo.
E, mesmo assim, eu não conseguia aceitar a ideia de mudar o Projeto. Cada tentativa de alteração doía como se eu estivesse rasgando a mim mesmo, com uma lâmina cega.
Em 2024, na metade do ano, eu e minha esposa voltamos a morar na cidade do Rio de Janeiro, após quase três anos no interior do estado. Embora ainda não morássemos na Ilha, meus pais, meu sogro, minha cunhada e muitos amigos continuavam lá. Voltei a frequentar a região com mais constância.
Havia um lugar que sempre considerei perfeito para o Projeto: um galpão amplo, onde seria possível oferecer muito mais do que aulas básicas de informática — montagem e manutenção, redes, audiovisual e muito mais. Era o cenário ideal do meu sonho.
Mas, mais uma vez, o sonho desmoronou. O galpão foi vendido e deu lugar a um edifício residencial.
Como nunca deixei de trabalhar com informática e mantenho uma empresa de suporte técnico, comecei o processo mais doloroso de todos: aceitar que o Projeto precisava mudar.
O ano de 2025 foi inteiro dedicado a pensar em como ainda poderia ajudar crianças e idosos. Foram mais de 25 anos sonhando com um Projeto e, de repente, precisar transformá-lo. Isso não acontece sem dor.
A partir de novembro, decidi parar de sofrer e começar a agir. As respostas começaram a surgir. Ideias apareceram. Algumas foram descartadas. Outras ficaram. E, pouco a pouco, comecei a lapidar aquele diamante bruto.
A primeira mudança foi abandonar a ideia de um local único. Se eu não podia levar as pessoas até o Projeto, levaria o Projeto até elas.
Foi então que compreendi, de verdade, a frase: “Dividir para conquistar.”
Transformei um grande sonho em pequenas partes, tornando possível o que antes parecia inalcançável.
Parte I – Conseguir doações de computadores, monitores, impressoras e notebooks. Avaliar o que funciona, descartar corretamente o que não funciona, preparar os equipamentos e entregá-los às instituições.
Parte II – Disponibilizar acesso à internet. Fibra óptica? Starlink?
Parte III – Conseguir professores voluntários para ministrar aulas nas instituições atendidas.
Parte IV – Expandir o Projeto para novas instituições.
Há outros passos, ainda em construção.
O maior aprendizado dessa jornada é simples e profundo: tudo tem seu tempo certo. Nada acontece do dia para a noite. Quando se tem fé, o caminho se revela.
Hoje, estou no início da Parte I. Mas tenho fé de que todo o Projeto será realizado — e que, por meio dele, crianças e idosos serão verdadeiramente transformados.
Muitas pessoas perguntam como surgiu o nome do Projeto.
A resposta é simples: Dividir para conquistar.
ReConectar os idosos ao mundo digital.
Conectar as crianças a ele.
Assim nasceu o Projeto ReConectar Digital.